quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

No carnaval

Transformam o país inteiro num puteiro, pois assim se ganha mais dinheiro.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Vontade é transcendental

Ferdinand não podia acreditar naquela situação. Seus colegas da Universidade de Praga estavam relutantes em explorar o Templo Secreto de Osíris, só porque um pregador nativo, aparentemente maluco, disse que havia uma maldição milenar no local recém-descoberto. Segundo ele, qualquer um que tentasse entrar seria destruído pelos deuses egípcios.

- Vamos! Nada pode acontecer conosco, a não ser ficarmos famosos – disse o tcheco corajoso, tentando mais uma vez convencer seus acompanhantes.

A fama falou mais alto que o perigo. Então os jovens arqueólogos escavaram até a entrada do templo. Tudo estava exatamente de acordo com as antigas lendas sobre aquele lugar, o que causou um novo desconforto entre alguns membros da equipe. Seria também verdadeira a parte da lenda referente à maldição?

- Não vão desistir agora não é? – provocou Ferdinand, usando uma resposta óbvia de um arqueólogo a alguns passos de entrar para a história.

O grupo de exploradores aproximou-se da sala principal, mas conjuntos de pedras enormes os impediam de acessá-la. Um deles era especialista em explosivos, e não demorou muito até que tudo estivesse armado e pronto para remover as pedras com segurança, melhor ainda, sem prejudicar a estrutura da antiga construção.

Algo inesperado, porém, aconteceu. Uma das explosões atingiu um cano de gás natural que coincidentemente passava junto ao Templo subterrâneo. Foi o suficiente para demolir todo o local e matar todos os jovens arqueólogos tchecos.

No dia seguinte, os jornais locais anunciavam a tragédia. E o pregador nativo, junto à distribuição das publicações, bradava:

- A vontade dos deuses é soberana!

***

Questão latente: O pregador nativo pode estar certo? O que aparentemente é coincidência pode ser considerado realização da vontade divina?

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Falta-nos honestidade crítica

Se para nós
a páscoa é a festa do consumo
o natal é a festa da hipocrisia
o ano novo é a festa da falsidade
será que ainda é justo chamar
o carnaval de festa da cultura?

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A solução para o relacionamento cético

Um professor me disse que não tinha nada contra Renan Calheiros ou qualquer outro criminoso. Era contra as ações deles. Disse que se encontrasse um político corrupto, apertaria a mão dele como faria com qualquer pessoa honesta, mas diria: "homem, ultimamente você tem feito muita besteira, não é?".

A distinção entre pessoas e ações parece ser algo importante. Sob o ponto de vista do meu professor, o erro não está nas pessoas em essência, e sim no que elas fazem. Compreensível. Todavia, dos outros só temos as aparências e as ações. As aparências enganam. Mas não é pelo fruto que conhecemos a árvore?
(quem ainda não notou, isso é ceticismo estendido para a filosofia moral)

A resposta talvez esteja no amor. Um relacionamento condicionado por ações é problemático, nele existe um risco muito eminente de falhar. Já um comandado pelo amor é perfeito, o amor é incondicional, isto é, não depende de nenhuma ação errada.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Liberdade de expressão livre de rotulação

Um pensador tem direito de questionar o dinheiro, o socialismo, a mais nova revolução, o papa, o homem, os discos voadores, sem ser considerado um sonhador, um egoísta, um fundamentalista, um descrente, um pessimista, um alienado. Não vejo outras finalidades para esses rótulos além de negar a autenticidade individual e segregar.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Para quem entendeu o ceticismo filosófico

notaapple
Isto não é uma maçã, René Magritte

sábado, 19 de janeiro de 2008

Sub specie aeternitatis

apple
Introdução: o problema da percepção

Não é a colher que entorta, é você mesmo.
- Menino fala a Neo, em The Matrix

Imagine uma maçã em suas mãos. Uma maçã mesmo. Caso você tenha uma aí por perto, é melhor pegá-la. Agora concentre nela. Você a vê? Você a sente? Claro! Mas o que garante a existência dessa maçã, se você só tem as aparências dela? A cor, a forma, o sabor, o aroma, até o barulho que ela faz ao cair na cabeça de Newton, tudo que temos é o fenômeno maçã em nossas mentes! Não possuímos nada da maçã de verdade além das sensações. O homem não é capaz de perceber, de experimentar qualquer coisa em si.

Confuso? Lembre dos seus sonhos. Quando a maioria das pessoas sonha, elas acreditam que estão no mundo real. Raramente conhecemos alguém capaz de saber que está sonhando durante seus próprios sonhos [1]. Bem, se dentro de um sonho, nós não somos capazes de experimentar nada, exceto as aparências, por que dentro do mundo real seria diferente? A diferença entre realidade e sonho não é só uma questão de hábito? Afinal, passamos mais tempo nesta suposta realidade do que nas falsas realidades dos sonhos, as quais sucumbem imediatamente ao acordarmos. Já chegou a hora de você acordar desta realidade aqui, perceber que ela não difere muito das fantasias do sono. Nossa percepção do conjunto das coisas em si, isto é, o mundo exterior, se resume aos fenômenos mentais: cores, formas, sabores, aromas e sons. O que é o real, fora isso?

As respostas filosóficas

Por convenção há doce e amargo, quente e frio, por convenção há cor; mas na verdade há átomos e vácuo.
- Demócrito, realista

Ser é ser percebido.
- George Berkeley, idealista

O problema da percepção não é um grande problema para os realistas ingênuos. Eles afirmam que o real é exatamente igual àquilo que experimentamos. Se eu vejo uma maçã redonda, logo ela realmente é redonda. Não precisamos de muita argumentação para descobrir incoerência nessa afirmação. Basta supor uma pessoa debilitada em sua capacidade de conhecer o mundo. Um drogado, por exemplo, percebe as coisas de maneira extremamente distorcida. O LSD, um alucinógeno potente, é capaz de fazer seus usuários ouvir cores e ver sons [2].

Não se preocupe se você era um realista ingênuo até agora. Muitas pessoas são realistas ingênuos antes de começarem a refletir filosoficamente (estamos fazendo isso agora, sabia?). Continuando, não podemos afirmar absolutamente nada sobre a realidade incognoscível, ou seja, a realidade além dos sentidos, das experiências. É absurdo defender o realismo, como também é absurdo defender o idealismo. De maneira simples, enquanto o primeiro defende a existência só da realidade material, da coisa em si, o segundo defende a existência só da realidade ideal, dos fenômenos.

Essas duas correntes de pensamento originaram uma discussão filosófica já subsistente por milênios, o que nos dá mais crédito para rejeitá-las. O problema da percepção é absoluto. Não há fatos sobre a realidade além dos fenômenos. Não há certeza sobre a coisa em si. Nós, humanos, somos meros escravos das sensações. Nossa existência está limitada ao reino das experiências, as quais são causadas por um mundo desconhecido, e o pior, que não se pode conhecer. Essas conclusões constituem o que há de mais importante no ceticismo filosófico.

Uma pergunta permanece: Devemos nos preocupar com nosso isolamento da realidade verdadeira? Talvez sim. Se a filosofia é o caminho para a verdade, há um grande entrave, visto que o filósofo cético considera inatingível a verdade sobre o mundo. O problema da percepção é um problema, ainda mais acentuado sobre o ponto de vista cético. Tamanha decepção o ceticismo nos causou! Mesmo assim, prefiro o ceticismo à ingenuidade. Não ouso clamar: a ignorância é uma bênção [3].

Desilusão? Sejamos pragmáticos

Verdadeiro é o nome de tudo aquilo que se mostrar bom no caminho da crença.
- William James, em Pragmatismo

Foi como o grande filósofo pragmatista definiu a verdade. Ora, encarando a verdade dessa maneira, não há decepção nenhuma para o filósofo cético. Ele pode continuar buscando a verdade, basta analisar as expressões do intelecto humano que são úteis e boas. Logo, filosofia não é o território neutro entre teologia e ciência o qual sofre ataques de ambos os lados, como alguém definiu. Pragmaticamente, filosofia seria mais bem definida como o estudo da verdade apresentada pela ciência e pela teologia.

A ciência é verdadeira, não porque analisa sob um método rígido a realidade, ou melhor, as aparências. É verdadeira porque é útil para o homem. O que seria de nós sem a medicina, por exemplo? Já a religião também é verdadeira, não porque é a revelação divina sobre a natureza das coisas. É verdadeira porque é útil para a transformação do homem. O que seria da sociedade sem a ação religiosa que reabilita pessoas com problemas existenciais, suicidas, viciados e criminosos? Obviamente, a atuação da ciência e da religião não se limita a esses dois exemplos, embora eles evidenciem bem a utilidade dessas duas expressões humanas.

A interpretação pragmática da verdade é igualmente eficaz para solucionar vários problemas filosóficos. Para James, a história da filosofia é, em grande parte, a história de um certo choque de temperamentos humanos [4]. Apliquemos essa visão ao confronto entre idealistas e realistas. Os idealistas são devotos, gostam de respostas absolutas, pregam o livre-arbítrio. Os realistas são ateus, adoram a matéria, divulgam o determinismo. De fato, nenhum dos dois está plenamente correto, pelo motivo de cada opinião ser baseada em temperamentos. Seja qual for o temperamento de um filósofo profissional, ele tenta, quando está filosofando, ocultá-lo. Temperamento não é nenhuma razão convencionalmente reconhecida, e por isso o filósofo tem necessidade de achar razões impessoais que justifiquem suas conclusões [5]. As necessidades ditam os argumentos, e pender para um dos lados é fundamentalmente uma questão emocional. A solução para a disputa entre realismo e idealismo é reconhecer que nenhum dos dois explica totalmente a realidade, porém ambos são importantes se usados convenientemente. O realismo é bom para o método científico. O idealismo explica melhor a relação entre Deus, homem e natureza. Essa é a lição do pragmatismo.

A verdade é a ferramenta que funciona. Infelizmente, cientistas construíram a bomba atômica e religiosos atiraram aviões em prédios lotados. Apesar disso, a ciência e a religião podem ser consideradas verdadeiras, já que são eficientes de maneira geral. E é este o objetivo da filosofia: tornar úteis essas duas grandes expressões. Através do questionamento ético e metafísico, nós aceitamos ou não as contribuições da ciência e da religião, ambas autênticas representações do espírito humano.

Fé: sobre a perspectiva da eternidade

A fé é a certeza das coisas que esperamos e a prova das coisas que não vemos.
- Autor desconhecido, Epístola aos Hebreus

Somos seres passageiros buscando verdades eternas. Somos escravos do espaço e do tempo. Nesse caso, como podemos julgar as verdades oferecidas por nosso espírito? O pragmatismo considera verdadeiro aquilo que suporta o jugo do espaço e do tempo e ao mesmo tempo se mostra bom. Desse modo verdades vivem e humanos morrem! Parece difícil demais julgar utilidades e ainda mais testar exaustivamente o lado bom de tudo. Certamente o pragmatismo é eficiente ao tratar das verdades impessoais, como a Relatividade Geral ou a Seleção Natural. Mas no âmbito das verdades individuais, é loucura ser pragmático, e nem mesmo temos tempo para isso.

Por exemplo, o pragmatismo não pode nos garantir o amor de alguém, isso é pessoal demais. Possivelmente ele também não garanta a existência de Deus. É certo que a religião pode ser útil e boa, se a filosofia filtrá-la dos maus desígnios. Porém, o que isso garante? Que Deus tem o potencial de existir, caso a filosofia o torne bom e não deixe seus fiéis serem fanáticos? Crença é uma questão pessoal. E o pessoal envolve o emocional, portanto o pragmatismo falha exatamente na comprovação das verdades pessoais.

Como proceder então? Viver na dúvida? Pior que muitos fazem isso. Agnósticos fazem isso. Esperam cair do céu a prova ou a refutação definitiva da existência de Deus. Eles não agem melhor que os pragmatistas. Contudo, ainda existe outra maneira de encarar essa difícil situação. Ter fé.

Em última análise, ciência, religião e até pragmatismo, não passam de perspectivas, modos de encarar o mundo de aparências no qual estamos limitados a existir. Apesar de elas serem convenientes e boas em certas ocasiões, nada nos garantem da realidade. Mais uma vez, nada podemos afirmar da realidade, da maçã em si. Então qual perspectiva devo usar? A de que existe um universo caótico criado ao acaso? Ou a de que existe um Deus perfeito que criou tudo com propósitos nobres? A perspectiva divina é a perspectiva da eternidade, pois ela é a visão do Criador, do Ser acima do espaço, tempo e aparências. Viver sobre a perspectiva da eternidade é viver de verdade e na verdade.

É claro que não há provas. Mas onde as provas terminam, a fé começa. A religião é uma expressão do ser humano, e por isso carece de questionamentos. Uma expressão pode manifestar amor, paz, bondade e muitos outros frutos positivos. No entanto, também pode canalizar ódio, guerra, intolerância e qualquer outro mau sentimento que o espírito humano é capaz de alimentar. Devido à nossa maldade interior, a religião deve ser questionada em seus princípios éticos e metafísicos. Diferentemente, a fé não exprime nada. Ela é um sentimento, uma verdade emocional, pessoal e independente do racional.

Os filósofos buscaram alcançar o eternamente verdadeiro, bom e belo através da razão. O ceticismo acabou com suas pretensões, ao menos no campo da realidade. Ainda bem que temos a fé, a nova esperança para as coisas eternas. Se nós vivermos buscando coisas passageiras, então seremos passageiros. Entretanto, a busca por coisas eternas nos torna eternos. Na medida em que a mente vê as coisas em seu aspecto eterno, participa da eternidade [6].

Quem de três milênios
não é capaz de se dar conta
vive na ignorância e nas sombras
à mercê dos dias e do tempo [7].

Viva sobre a perspectiva da eternidade!

***
Referências:
[1] FAQ do The Lucidity Institute, lucidez em sonhos é um fato cientificamente comprovado
[2] Artigo do governo americano sobre alucinógenos
[3] Diálogo de Cypher ao comer um bife suculento no filme The Matrix, cena disponível on-line
[4] [5] William James, Pragmatismo
[6] Arthur Schopenhauer citando Spinoza, O mundo como vontade e representação I
[7] Goethe, essa estrofe está em uma das primeiras páginas de O Mundo de Sofia

Veja também:
Garfo e Faca, por Malprg - ótimo texto de perspectiva pragmática