Um sussurro vindo da escuridão
Base Naval da Baía de Guantánamo, Cuba — Eu escrevo da escuridão do campo americano de detenção em Guantánamo com a esperança de fazer nossas vozes serem ouvidas pelo mundo. Minha mão treme enquanto seguro a caneta.
Em Janeiro de 2002, fui capturado no Paquistão. Cegaram-me, algemaram-me, drogaram-me e colocaram-me em um vôo para Cuba. Quando saímos do avião em Guantánamo, não sabíamos onde estávamos. Eles nos levaram para o Campo Raio-X e trancaram-nos em jaulas. Lá havia dois baldes – um vazio e outro cheio de água. Éramos para urinar em um e lavar-nos em outro.
Em Guantánamo soldados atacaram-me, colocaram-me em solitárias, ameaçaram matar-me, ameaçaram matar minha filha e disseram-me que passaria o resto da minha vida em Cuba. Eles privaram-me de dormir, forçaram-me a escutar músicas altíssimas e brilharam luzes intensas sobre minha face. Eles mantiveram-me em salas frias por horas, sem comida, sem bebida, sem direito a usar o banheiro, sem poder limpar-me para as orações. Eles enrolaram-me na bandeira israelense e contaram-me sobre a existência de uma guerra santa, onde a Cruz e a Estrela de Davi são um lado e a Crescente é o outro. Eles bateram em mim enquanto estava inconsciente.
O que escrevo aqui não é fantasiado pela minha imaginação, nem ditado pela minha insanidade. Estes são fatos verificáveis, testemunhados por outros prisioneiros, representantes da Cruz Vermelha, interrogadores e tradutores.
Durante os meus primeiros anos em Guantánamo, fui interrogado muitas vezes. Meus interrogadores contaram-me que queriam que eu admitisse minha participação na Al Qaeda, e meu envolvimento com ataques terroristas nos Estados Unidos. Eu respondi que não tenho conexão com aquilo descrito por eles. Eu não sou membro da Al Qaeda. Eu não encorajo ninguém a lutar pela Al Qaeda. Al Qaeda e Osama bin Laden só fizeram matar e denegrir uma religião. Eu nunca lutei, nem carreguei uma arma. Gosto dos Estados Unidos, e não sou uma ameaça. Eu vivi nos Estados Unidos e já quis virar um cidadão de lá.
Sei que os soldados que fizeram coisas ruins a mim representam a si mesmos, não aos Estados Unidos. E devo falar que nem todos os soldados americanos de Cuba nos torturaram ou nos maltrataram. Houve soldados os quais nos trataram de maneira bastante humana. Alguns até choraram quando testemunharam nossas condições terríveis. Uma vez, no Campo Delta, um soldado pediu desculpas a mim e ofereceu-me chocolate quente e biscoitos. Quando o agradeci, ele disse: “Não preciso que você me agradeça”. Eu incluí isso porque não quero que leitores pensem que eu culpo todos os americanos.
Mas, por que, depois de cinco anos, ainda não há conclusão sobre a situação em Guantánamo? Até quando pais, mães, esposas, irmãos e filhos chorarão por seus amados prisioneiros? Até quando minha filha terá de perguntar sobre meu retorno? As respostas só podem ser encontradas com as mentes sãs da América.
Eu prefiro morrer a ficar aqui para sempre, e tentei cometer suicídio diversas vezes. O propósito de Guantánamo é de destruir pessoas, e eu fui destruído. Estou desesperançado, visto que nossas vozes daqui do interior do campo de detenção não são ouvidas.
Se eu morrer, por favor, lembrem da existência de um ser humano chamado Jumah em Guantánamo, cujas crenças, dignidade e humanidade foram abusadas. Por favor, lembrem da existência das centenas de detidos em Guantánamo, os quais sofrem do mesmo destino. Eles não foram julgados por nenhum crime. Eles não foram acusados de nenhuma ação contra os Estados Unidos.
Mostrem ao mundo as cartas que dei a vocês. Deixem o mundo lê-las. Deixem o mundo conhecer a agonia dos detidos em Cuba.
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Esta é a tradução de um artigo do jornal Los Angeles Times. Tal artigo é baseado na carta original escrita por Jumah al-Dossari. A carta expressa as visões e testemunhos de um prisioneiro de Guantánamo.
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