O Ovo e a Galinha: Deus e o Homem
A principal crítica contra a religião, pelo menos em países sub-desenvolvidos como o nosso, é a acusação de que a religião aliena. Isto é, a fé em Deus é vista como um complexo processo de alienação.
Ludwig Andreas von Feuerbach foi um dos primeiros a classificar a religião como uma forma de alienação. Segundo ele a exposição do homem a natureza o faz tentar explicá-la, analisando a origem das coisas, os fenômenos naturais, o tempo, passado, presente e futuro. Na tentativa de responder as dúvidas provenientes dessa análise, a humanidade cria os deuses. São dados aos seres divinos forças e poderes que exprimem desejos humanos: este é o principal ponto da crítica de Feuerbach. De acordo com o filósofo e antropólogo alemão a religião “é a projeção externa da natureza interna do homem”. Progressivamente os deuses vão evoluindo. Ganham o status de governantes da realidade e passam a gozar de poderes sobre-humanos. Gradualmente, a humanidade esquece que criou as divindades, inverte as posições, com isso os homens julgam-se criaturas inferiores aos deuses.
Concluí-se que a alienação religiosa é o longo processo pelo qual o homem se reconhece como criatura de sua própria criação. A criação é um outro, um alienus, transcendente, misterioso, poderoso e dominador. O domínio da criatura (deuses) sobre seus criadores (homens) é a alienação (fonte: Convite à filosofia: Marilena Chauí, adaptado).
Por incrível que pareça, a alienação religiosa está descrita na Bíblia. O livro sagrado dos cristãos diz em Atos 7.40-42:
“Disseram a Arão: “Faça deuses para nós, deuses que vão à nossa frente. Não sabemos o que aconteceu com Moisés, esse homem que nos tirou do Egito”. Então fizeram uma imagem em forma de bezerro e mataram animais para oferecerem a ela como sacrifício. Depois deram uma festa em honra da imagem que eles mesmos tinham feito. Mas Deus se afastou deles e deixou que adorassem as estrelas do céu (...)”
É verdade, portanto. Os homens podem se confundir neste processo de criação. Mas isso não prova que a religião é falha ou que o divino não existe. Uma questão ainda permanece: “Foi o Homem que criou deus? Ou foi Deus que criou o homem?”. Infelizmente tal pergunta é uma falácia lógica. Um questionamento vazio, o qual não dá chance de resposta racional. É o mesmo que perguntar: “Quem veio primeiro? O ovo ou a galinha?”
A pergunta é devastadora, não é possível advogar para um de seus lados racionalmente, visto que não podemos voltar no tempo e descobrir se Deus revelou-se ao homem, ou se o Homem revelou-se em deus. Ainda assim, é crucial para cada ser humano chegar a sua resposta.
É dessa incapacidade de provar ou refutar a existência de Deus que surge a fé, definida como “a prova das coisas que não vemos” na carta aos Hebreus 11.1. “A prova” porque a fé, sustentada pelo relacionamento com o Divino, leva o homem a crer Nele, então fica provada a existência de Deus, verdadeira para aqueles que têm fé. “Das coisas que não vemos” porque o ser humano freqüentemente associa o real àquilo que seus sentidos percebem. Porém, não só os sentidos nos conduzem a realidade, a fé também é um caminho para a verdade, um meio diferenciado de perceber a realidade, a realidade que não pode ser provada racionalmente: Deus existe.
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