A mão que mata

Eu nunca concordei com essa visão de educação solucionadora. Acho que as pessoas endeusam muito a razão ao pensar assim. Muitas vezes faço minhas as idéias de Rousseau: a educação não torna o homem bom. Torna o homem esperto, e em geral, para o mal. “Um homem intelectual, é um animal depravado” – dizia ele.
Porém, esse ano eu conheci um novo tipo de educação, a qual prefiro nem chamar de educação, mas sim de lição. Lição de vida. Foi meu atual professor de cursinho, Ednaldo Ernesto, que fortaleceu minha fé na educação, ou melhor, que me deu fé na educação. Porque aquilo que ele ensina não é só matemática. Ou história, quando “desperdiça” horas de aula falando sobre seus tempos de comunista. Mas ele ensina lição de vida, e fundamenta tudo com sua valiosa experiência.
Vou dar um exemplo das lições que ele passa. Comentando sobre os escândalos de corrupção envolvendo Renan Calheiros, Ednaldo logo estendeu seu discurso, e começou a pregar sobre ética. E falou como um amante da ética, como um adorador da boa vontade. Primeiro, narrou sua visita ao salão de beleza da Câmara dos Deputados. Segundo ele, era um salão de primeiro-mundo, onde os políticos, gratuitamente, podem ter seus cabelos, barbas e unhas feitas, enquanto desfrutam deitados em um sofá confortabilíssimo um “uísque escocês caríssimo”.
Depois, disse ele que as mãos de um pobre cortador de cana do interior de Pernambuco são imundas e feias, típicas de um trabalhador braçal. Já as mãos de Renan, muito provavelmente, são limpas e belas, típicas do tratamento especial proveniente do “caríssimo para nós, mas gratuito para eles” salão de beleza dos deputados.
Mas Ednaldo contou que nunca beijaria a mão de Renan Calheiros, ainda assim, teria gosto de beijar a mão do cortador de cana. A mão do cortador é a mão justa, mão que trabalha, que sofre, que alimenta a família, mão limpa em essência. No entanto a mão do político corrupto é a mão injusta, mão que rouba, que oprime, que tira o pão das famílias brasileiras. Mão que mata. Mão imunda em essência. Mão que Ednaldo Ernesto nunca beijaria – “nunca” – repete ele com gosto.
Na seqüência ele beija a mão de um aluno. E pede para que o aluno faça o mesmo. O aluno, ainda um pouco hesitante, beija a mão do professor. Daí dá a lição. “Que nossas mãos continuem sendo dignas de serem beijadas”, conclui.
Isso que chamo de educação de qualidade. Educação que justifica, que faz a diferença, que mostra o valor de fazer o que é certo, que nos ensina a importante lição do amor a ética, da vontade de beijar a mão limpa.

